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Quero ser um menino de verdade

quinta-feira, 30 de junho de 2005

Quando terminei de assistir Ai, Inteligência Artificial (de Steven Spielberg), fui pro meu quarto e chorei copiosamente por mais de uma hora. Muita coisa foi tocada no meu íntimo, coisas que doem, outras que alegram, coisas que escondo, coisas que sonho...coisas que revelo, coisas que idealizo, coisas das quais tenho medo...coisas que nunca refleti, mas estavam! estão no meu coração, exigindo explicação, atenção, fazendo perguntas ou mesmo dando respostas que eu não quero conhecer, ou determinei que não aceitaria. Entre as muitas reflexões que fiz, uma me inquieta e nunca termina em uma conclusão final (quando me atrevo a investigar meu coração): a de ser aceito como um menino de verdade. Eu já li um pouco a respeito desta necessidade de aceitação do indivíduo, e reconheço que não tenho preparo suficiente pra margear, muito menos me aprofundar nisto. O que tenho por certo é que aceitação e rejeição marcam bem os relacionamentos, ainda que sejam profissionais, mecânicos, movidos por inevitável necessidade. Quando alguém ama a outro pode se achar no direito de exigir dele uma atenção especial e espera ser atendido em suas expectativas, as quais, muitas vezes, podem ser ilusórias, diáfanas, que não têm existência real, concreta, o que pode resultar em uma tremenda decepção. O preenchimento prazeroso de alguém em nosso coração, pode ficar, neste caso, com um vazio enorme e uma mágoa pelo tempo perdido por se crer em algo que nunca existiu. Por outro lado, alguém também pode querer ser o que nunca foi, ter uma qualidade que ele pode até abominar, e pode chegar até a compartilhar idéias e gostos com as quais, de modo algum, se identifica, tudo isto apenas para ser aceito. E, mesmo assim, poder sofrer uma rejeição, ou um tipo de aceitação que ele não esperava, não queria: por exemplo, esperando que o outro se apaixonasse, plantou uma grande amizade, e ao invés do sonhado beijo, recebeu um forte abraço. Pode ocorrer isto, creio, até mutuamente, ambos sendo o que não são para serem aceitos, para serem amados. A interpretação teatral pode convencer de modo limitado, porém por dentro...podemos nos enganar, mas conscientes de que estamos nos enganando, mentindo pra nós mesmos. Bem, eu vivi muitos momentos assim, querendo ser um menino de verdade, em outros termos, esperando modificar meu status social, minha voz, meu andar, sendo menos inteligente do que sou, ou tão burro quanto, ou ainda um gênio, para ser aceito. Para cada pessoa interpretava algo, esperando não ser rejeitado. Entretanto, acordei a tempo. Se amo as pessoas como elas são, não poderia esperar uma reciprocidade? Se tenho de abrir mão de algo, de falar o que quero por respeitar a fraqueza momentânea de alguém, não poderia esperar isto de outro? E se também abomino as atitudes de alguém, o jeito de ser, pensar, sentir, viver de alguém, por que eu o incomodaria? Por que o traria para o meu lado? Por que esconderia o que não gosto? Recentemente, perdi um amigo por ter-lhe dito que certos tipos de comentários que ele fazia não me agradavam e estavam me entristecendo. Ele pediu desculpas, mas afastou-se, não tivemos mais diálogo. Por que? Porque boa parte do seu repertório de palavras era para criticar negativamente alguém. Ele constantemente agia como um juiz supremo dos pobres e falíveis seres humanos. Cortado isto, seu verbo se esgotou. Até que ponto ele foi meu amigo? Eu mesmo não me acho no direito de ser juiz de ninguém. Certamente, quando se usa de sinceridade, deve-se fazê-lo com muito critério, até com uma certa dose de misericórdia. Não obstante isto, sinceridade é fundamental para os relacionamentos se solidificarem. A correção é como um fogo que queima a mão e aprendemos a temer as queimaduras. É bom quando somos nós mesmos de verdade, mesmo que você negue a si mesmo, mas dizendo: eu me nego a mim mesmo. A quem, afinal, devemos tantas explicações?

Créu, um papagaio

Minha irmã estava muito triste em casa e chorava inconsolavelmente. Ela estava passando por um período prolongado de muitas dificuldades, em que a vida se tornou um enorme NÃO aos seus sonhos, ideais, trabalho, etc. (a tristeza só quer uma desculpa para se multiplicar e destruir como uma bactéria necrosante). Em sua casa estava apenas o Manezinho, seu papagaio, de dez anos de idade. Ela começou a soluçar sem parar e nada poderia traduzir sua tristeza. Seu marido estava no trabalho, seu filho na escola. Ela nunca havia se relacionado bem com Manezinho, ele nunca foi carinhoso ou mesmo correspondia às habituais brincadeiras que se tiram com um papagaio, por exemplo, cantar pra ele imitar. Nesse dia, Manezinho lhe ouviu chorar e desceu da sua gaiola, bem acima do chão, agarrando-se a um portão de ferro, daí caminhou até a cadeira na qual ela estava sentada. Ele conseguiu (não sei como) subir até ficar em seu ombro e com o bico carinhosamente parecia querer consolá-la, passando-o sobre seus cabelos e parecendo beijá-la. Ele nunca foi carinhoso com ela. Nesse dia, ficou comovido, emocionalmente envolvido.
Às vezes, um carinho vem de onde não imaginamos, de quem parecemos não poder esperar.
Até de um animal!
 

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