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Silêncio

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Geralmente, a-c-h-o que se faz primeiro um texto para depois comentá-lo, se for ou não necessário, principalmente quando o fato não é concreto e depende totalmente da abstração. Não dou, contudo, nenhuma certeza desse fenômeno. Então, resolvi primeiro explicar como a gestação textual que está no meu ventre agora foi originada. Esse bebê já tem fala e corpo, mas ainda não o conheço. Quanto mais os segundos se passam e retardam seu parto, ele tende a ficar cada vez mais diferente. Ele teima em querer nascer para escapar de um aborto, escapar das contrações da inspiração do momento e ficar sem chance de existir.
Esse bebê é baseado no silêncio que uma professora do curso de Comunicação Social da UFPB fez, quando eu disse que me identifiquei com a área de comunicação. Eu já havia concluído o curso. Nesse dia haveria a apresentação o TCC de uma amiga, uma das únicas com quem consegui criar raízes de relacionamento melhor definidas, sem qualquer tipo de embaraço ou formas/fórmulas sociais de distanciamento. Havia ainda mais dois professores de uma banca examinadora e eu apenas como mero e único expectador.
Trata-se da Professora Doutora Suelly Maux, cujas aulas, em 2002 por aí, eram autênticos talk-shows, marcados por ironias fortes e precisas, ditos picantes, com um inigualável sabor nordestino. Sim: ela dava aulas e tinha objetivos bem definidos! Não parecia seguir um script, sua narração trabalhava eficientemente ao vivo. As câmeras da minha memória registraram apenas o que ela bem conseguia me fazer ver: a dramaticidade da vida, dos fatos aparentemente sem importância, os limites da normalidade e da loucura, a experimentação do viver mesmo contra o que se convencionou como obrigatório ter ou não ter sentido. Esse registro é totalmente pessoal, se, algum dia, for lido por alguém que a conheça pode não haver nenhum tipo de concordância.
Há momentos em que as coisas acontecem e só anos depois a gente se ocupa de parar e tentar entender o que mesmo sem importância aquilo pode nos dar, tirar, transformar, em termos de dar ou trazer à tona um/o significado ou algo próximo disso. Comigo isso já é costumeiro. Sei que tudo o que vejo, fantasio, sinto, percebo produz em mim significados e só poderei entendê-los, ainda que não claramente ligados ao que vivi primeiro, quando começo a pensar sobre ele, quando procuro, junto, escolho leituras e palavras que possam dar conta daquele pequeno cometa que cruza o céu escuro do entendimento.
Espero que fique claro que o significado produzido não se restringe ao que ele pode proporcionar no momento e depois, pode também entrar em percursos diferentes. A gente às vezes pode pensar sobre um elefante e facilmente falar sobre a formigas.
Hora do parto.

Silêncio-pausa
Silêncio-eject
Silêncio-play
Silêncio-power
Silêncio-off
Silêncio no rádio, na tv, nas revistas
Silêncio na entrevista
Silêncio na mudança de assunto
Silêncio na arte, na minha nudez
Na fotografia
Na grafia, na agrafia
A roupa calada
O copo sem água, o veneno da áspide
A língua dentro do caixão
O silêncio de cada coisa em um lugar
Silêncio-proteção
Silêncio-playlist
Silêncio-rip
O olho aberto, porém fechado
Olho-off
Como fazer para que não ouçam meu silêncio?
Como fazer para que esqueçam meu silêncio?
Silêncio-ponto
Silêncio-vírgula
Silêncio-Interrogação
?
(Jackson Angelo)
 

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