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O voo da águia desmistificado

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Amigos, espero que tenham tido um ótimo fim de semana. Estive terminando uns trabalhos (não tem nada a ver com gráficos) por isso me ausentei um pouquinho.
Bem, hoje, queria falar sobre o famosíssimo texto "O voo da águia". Esse texto começou a circular na rede, principalmente na forma de apresentação de Powerpoint e tem sido amplamente utilizado em palestras, por professores, empresários e gerentes de RH.
Pelo menos uma vez por ano alguém ainda me envia essa mensagem.
Segundo o site E-farsas, o conteúdo e as informações veiculadas nessa apresentação são tidas como cientificamente improváveis.
Para quem ainda não conhece, o E-farsas tem como objetivo avaliar a veracidade das informações que veiculam, em diferentes formatos (vídeo, texto, imagem, etc.) na internet e que são disseminadas virulentamente de e-mail em e-mail.
Abaixo algumas das conclusões publicadas no E-farsas:

"Vira-e-mexe esse texto aparece em nossas caixas de entrada e, na maioria das vezes, ainda vem em uma chatíssima apresentação de Power Point! Essa é mais uma história usada para levantar a auto-estima do pessoal e que, geralmente, a gente ouve nas palestras motivacionais por aí!

Resumindo: Tirando as imagens lindas que acompanham o slide, o texto mostra que devemos fazer como as águias que, depois viver 40 anos, se recolhe na sua solidão, arranca todas as suas penas e quebra o seu bico. Depois de fazer essa "atrocidade" com ela mesma, a águia renasce com novas penas e novo bico e começa tudo de novo!

Incrível né? Porém, irreal!

Lendo o texto, algumas perguntas vêm à mente:

Quantos anos vive uma águia?

O texto não especifica o tipo da águia, também não diz qual o país em que ela vive. Isso é normal nos boatos que circulam pela web: textos que não são muito específicos, que não informam com exatidão. O fato é que no Brasil, temos a águia-pescadora, ou pesqueira e ela vive 30 anos, em média. Aliás, essa é a média de vida de todas as águias conhecidas no mundo.

As águias arrancam as próprias penas?

Essa história de que ela arranca todas as penas do corpo não foi comprovada pela ciência. Esse mito pode ser desmentido em vários sites especializados em aves. Um deles é o Centro de Estudos Ornitológicos, onde o editor Luiz Fernando de Andrade Figueiredo afirma, sem sombra de dúvidas, que essa história é falsa.

Também podemos nos apoiar no artigo do presidente da APF (Associação Paulista de Falcoaria), André Bizutti. André conta em seu texto que a águia, assim como a maioria das aves, troca as suas penas gradativamente ao longo de sua vida e essa troca se dá uma vez por ano, entre a primavera e o verão.

Quanto ao seu bico, ela também não tem esse "costume" de quebra-lo. O bico cresce constantemente e a águia o apara naturalmente, enquanto come as suas presas. Além disso, uma ave não conseguiria ficar tantos dias sem se alimentar, como afirma o e-mail.

O que apuramos em nossas pesquisas é que não só a águia como nenhum outro animal no planeta (com a exceção de alguns humanos esquisitões!) pratica a automutilação. A perda de penas e quebra de unhas e bico pode acontecer com algum bicho que esteja preso em cativeiro e/ou sofre uma enorme quantidade de estresse. Na natureza, ou seja, o bicho solto em seu habitat natural nunca se mutila, ainda mais para se renovar, como afirma o texto!

Outro trecho do e-mail afirma que a águia, em determinada época de sua vida, se recolhe em um ninho solitário para começar o seu processo de renovação. Só pra constar: as águias são criaturas solitárias por natureza, portanto, mais uma derrapada do autor.

E como surgiu essa história?

É possível que o autor desse texto, que tem versões em inglês e francês, tenha se baseado em duas fontes:

Uma delas é a bíblia. Em Salmos, capitulo 103, versículos 3, 4 e 5, há uma trecho que diz o seguinte:

... Ele é quem perdoa todas as tuas iniqüidades;

... quem farta de bens a tua velhice, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia...

E no Livro de Jó, capitulo 39, versículo 27:

Ou se remonta a águia ao teu mandado, e põe no alto o seu ninho?

E a outra fonte de inspiração para a criação dessa história pode ter sido a mitologia grega, com a famosa história da Fênix, uma ave muito parecida com a águia, que depois de morrer queimada renasce das cinzas, para morrer novamente no dia seguinte e renascer de novo! "

A lógica científica, objetiva, racional, tirando toda emoção! Quantos não já choraram ouvindo essa apresentação?! Quanta disposição para mudança alguns não alcançaram?!

Agora segundo Marcos L. Azevedo, leitor do E-farsas:

Temos dificuldade para entender que 'parábolas' comunicam verdades não factuais, isto é, verdades morais. "No mundo ocidental compreendemos a verdade de forma experimental, empírica, provada e testada. No mundo oriental a verdade é o sentido que a realidade comunica. Quando digo que saí para o trabalho "voando" eu não preciso ter asas de águia, ou hélice ligados ao meu corpo... é um sentido figurativo. E quando falo que saí voando enfatizo muito mais a realidade da pressa com que me pus a caminho do que dizer que saí apressado. Que pena que o pensamento ocidental tenha matado tanto o encanto da vida, num mundo tão sem coração, sem alma e sem espírito, sem sonhos e sem encanto. Prefiro o sentido da renovação da águia, que encanta à mera desmistificação da racionalidade que se impõe como única verdade. Há mais mistério entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia. Que deixemos, como as galinhas, nosso cisco, para almejar o vôo nobre e elegante da águia que tanto nos inspira. Não basta ter verdade empírica (cientificamente comprovada), é preciso ter verdade transformadora (humanamente encantadora). Valeu!!!"

Pessoalmente, acredito que é importante a racionalidade assim como o sonho, o mítico. No caso da mensagem "O Voo da águia", as informações são apresentadas como reais e podem levar o leitor até a espalhar estas informações na categoria de verdade e não como mito.

Admiro o místico desde que ele se apresente como tal. Que nos leve a sonhar, sim, mas conscientes de que as informações não são factuais, como é o caso da ressurreição da Fênix, a ave mítica que revive das cinzas. O sonho de Ícaro, a vaidade de Narciso e tantos outros personagens e estórias da mitologia grega, que nos são apresentadas como mito e assim permanecem no entendimento.

Vale à pena ler outras explicações do E-farsas sobre esse exército de mensagens que lotam nossas caixas postais em que acreditamos sem nada questionar. Acho correto ainda que não se adote o site como única fonte de avaliação, é preciso pesquisar em livros e na net a respeito, principalmente se desejarmos utilizar as informações em ambientes formais, escolares, de trabalho, etc.

No caso do texto "O voo da águia" não vejo grandes problemas na sua divulgação, desde que se afirme que as informações nele contidas não são cientificamente comprovadas. Mas há um monte que circulam na net que precisam ser evitadas, ou estaremos contribuindo ainda mais com a desinformação digital.

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