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Um conto sobre Ingratidão

quinta-feira, 9 de julho de 2009

No blog de Allyne Evellyn li uma postagem que me causou espanto. É sobre a famosa e sempre tão esquecida gratidão.
Sempre é um pouco trabalhoso tentar compreender e explicar o que seja a gratidão em um mundo que se caracteriza pelo afastamento cada vez maior desse valor.
Estar agradecido é sempre tratado como um estado temporário e algo que merece apenas um simples obrigado, muitas vezes dado mais como formalidade do que por sinceridade de coração.

Vejamos o texto de Icaro Sunderland:

"Na ausência total de comida, um pelicano abre seu peito com o bico , e oferece a própria carne aos filhotes, consegue sobreviver ao seu auto-sacrifício por alguns dias, quando, finalmente, morre de fraqueza. Um dos filhotes comenta com o outro:
_Ainda bem. Eu estava cansado de comer todos os dias a mesma coisa."

Só fico pensando o que danado esses filhotes comeram após a morte do pelicano, afinal havia uma ausência total de comida e o pelicano era apenas pai (ou mãe) dos filhotes. Talvez, a carne morta, sem vida fosse o novo prato, não mais a carne viva, de um ser que eles nunca puderam comer por inteiro, saciando inteiramente seu apetite. Mas, agora poderiam. Realmente, o cúmulo da ingratidão e do egoísmo.
Não tem gente assim? Recebe uma porção boa de alguém, mas amaldiçoa e maldiz esse mesmo alguém porque esse alguém não dá tudo o que possui ou poderia dar, conforme uma avaliação egoísta.
Apesar do tom antropofágico do texto, o mesmo aconteceu com Cristo, com tantas pessoas e outros personagens reais que procuraram fazer desse mundo um lugar melhor, com mais amor, paz e amizade.
Eles se deram por inteiro, deram o melhor de si mesmos, sua própria vida e existência, para que os outros também pudessem viver. E o que se poderia esperar deles: gratidão.
Gratidão é um reconhecimento genuíno pelo bem que alguém nos fez, nos legou, nos deu, pelas portas, bençãos, caminhos, lições, proezas, gestos, ensinamentos que nos foram generosamente passados.
Entendemos bem o que seja gratidão quando analisamos o que nos causa no coração um remorso, uma mágoa pelo mal que alguém nos fez. Há feridas que dificilmente se cicatrizam, não é verdade? Toda vez que olhamos para o passado e nossa alma revive uma palavra destruidora, um ato de falsidade, de injustiça, a dor se move como faca pontiaguda no coração e sangramos muito por dentro. Ficamos inconformados com a maldade vivenciada por nós mesmos, principalmente quando o que nos faz mal seria uma das últimas pessoas de quem esperaríamos tal desapontamento. O contrário disso deveria ser o que nos proporcionaria um ato de desprendimento, de bondade, de justiça. Deveria nos causar contentamento, um contentamento que se renovasse e não ficasse perdido no tempo. No lugar da ferida existiria um perfume sobre a pele que nos faria respirar calmamente. Infelizmente, as feridas falam mais alto que os perfumes e carinhos. Os perfumes parecem evaporar e seu cheiro é esquecido.
Nem sempre estão distantes os que podem ou poderão nos trair, muitas vezes estão tão perto. No texto, os próprios ingratos pelos quais o pelicano deu sua vida foram seus filhotes. Uma das mais sórdidas características da ingratidão é o egoísmo. O ingrato avalia tudo a partir do seu eu, do valor, benefício que os atos e coisas têm para o seu eu, seu próprio mundo, suas saciações, seus desejos. O mundo é raciocinado a partir do seu próprio corpo, de acordo com suas vontades.
Jesus Cristo teve em Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o seu traidor. Por um punhado de moedas Jesus foi vendido. Talvez Judas tenha vendido Jesus Cristo pelo sabor de ver aquele que ele nunca poderia ser ou se comparar reduzido a migalhas. Vendeu alguém de quem ele nunca foi dono. Para que serviria o punhado de moedas? O pior de tudo é a consciência da traição: Judas traiu mesmo tendo testemunhado todo poder, amor e sabedoria de Cristo.
Como suportar alguém assim? Jesus disse para Judas: o que tens de fazer, faze-o depressa!
Como suportar por mais tempo, como suportar alguém que de livre vontade é mau e injusto? Alguém pelo qual, mesmo assim, ainda daríamos a vida?
Ainda bem que para infelicidade de todos os ingratos e traidores, dos quais o diabo é pai e primeiro da história, Jesus venceu a morte.
Agora, estamos diante do maior espetáculo de humilhação, de injustiça e ingratidão da história: o momento em que Jesus seria crucificado e a multidão gritaria: crucificai-o.
Como suportar tanta ingratidão? Jesus veio para aquele povo. Não era rico como esperavam de um Deus. Não nasceu em um castelo como esperavam de um Deus. Não tinha helicópteros, exércitos, vestes douradas, cheias de ouro, que seria a própria transfiguração do narcisismo humano, da vaidade e apego às coisas materiais. Jesus era rico pela sua forma de ser, de falar, de respeitar os outros.
E então relembrando isso, agora me pergunto como tenho avaliado as pessoas, meus amigos, meus familiares: unicamente pelo que eles me dão ou fazem por mim? E se eles nada dessem, mas me amassem de verdade, me dessem respeito, valor, companhia, ensinamentos, conselhos, me valorizassem? Eu avalio as pessoas de acordo com a glória material que ostentam passando a ser pra mim exemplos de pessoas realizadas e abençoadas? Ou tento ver além disso: tento ver a glória de paz e justiça que suas palavras e atos me trazem?
Os perfumes evaporam rápido e são completamente esquecidos?

Um grande abraço pra você, espero que essa reflexão lhe seja útil.

Um comentário

  1. Interessante esse pequeno conto, é de um amigo meu da faculdade. Esse texto me suscitou uma reflexão :
    Como uma pessoa que se afasta de Cristo, está sendo de certo modo esse filhote que regeita o próprio sangue e corpo de seu pai....
    Isso de verdade tocou meu coração!

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