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Sobre o fiado

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O fiado ainda é muito comum em diversos municípios do Brasil. Em minha cidade, Cabedelo, parece uma lei de sobrevivência; apesar da existência de uma economia formal, com a possibilidade de financiar as compras com cheque e cartão de crédito, além, é claro, das compras à vista. Para quem não sabe, o fiado é uma modalidade de compra baseada na confiança que o comprador possui no vendedor, de que esse certamente o pagará num futuro próximo (ou muito distante), conforme (ou não) o que foi combinado. Por isso, alguns sugerem que o termo deriva de confiado. O ditado sobre fiado "Nunca fiar de quem uma vez te engana" evidencia outro termo derivado de fiado: "fiar", que significa vender fiado. Segundo o ciberduvidas, fiar significa, etimologicamente, ter confiança, acreditar).
Alguns afirmam que essa prática ainda é comum em bodegas e bares, mesmo nas grandes cidades. E destacam a "amizade" que se cria entre o vendedor e o freguês como modo de validar a confiança no comprador. Mas, em Cabedelo, isso acontece em todo tipo de estabelecimento. Conheço uma senhora que comprava em uma farmácia por meio do fiado; por anos ela fazia isso, e sempre pagava pontualmente. Suas amigas de trabalho aproveitavam dessa confiança e compravam em sua conta também, mas não diretamente. Ela anotava o que elas queriam e comprava por elas, com conhecimento do vendedor. Toda conta era creditada a ela. No fim do mês ela saia recolhendo o que lhe deviam e efetuava o pagamento.
Uma das formas do comprador ganhar confiança em um estabelecimento em que ele seja desconhecido é ser apresentado e indicado por outro comprador, amigo ou freguês há muito tempo do vendedor. A negociação continua na base da confiança que o comprador diz ter no outro, por já conhecê-lo, etc.
Essa combinação é diferente das combinações com matemáticas padronizadas atualmente (2 vezes sem juros; três de R$20, etc.). O comprador poderia combinar pagar em determinados dias, ou possíveis dias, de acordo com sua possibilidade de ter renda. Fora que se ele não pudesse pagar o que foi combinado pagaria uma parte próxima do combinado e acertaria o resto depois. O que é insuportável para os comerciantes com relação ao fiado, além da falta de cumprimento do que foi acertado, é a falta de comunicação: "o sujeito num dá nem uma satisfação!", ie, o sujeito comprou, acertou, deu garantia, mas passadas semanas após o prazo, nenhuma palavra, nenhuma desculpa, parece que o sujeito nem existe mais. "Será que ele morreu? ", pode pensar o vendedor.
Nesse aspecto, vários fatores interferiam na negociação: despesas extras com remédios, com morte de familiar, atraso de pagamento; ou não pude pagar tudo (sem explicar a razão); sem contar as descaradamente cínicas: perdi, fui roubado na saída do banco; emprestei e não me pagaram; etc. E quando o vendedor procurava averiguar as informações: tudo mentira! Etc.
Conforme me falam alguns conhecidos de outros municípios, nas cidades pequenas da Paraíba ainda é uma prática muito comum.
Alguns consumidores do município utilizam as três modalidades de compra financiada: cartão, cheque e fiado. Minha mãe, por exemplo, possui uma loja com firma reconhecida e tudo mais, que abre essa possibilidade de compra pra pessoas que conquistaram a confiança da loja, ainda que elas tenham cartão ou cheque. A confiança atualmente nunca é imediata, ainda que as pessoas tenham ótimas referências. Antes, essa confiança adquirida com outros comerciantes validava a confiança naquela pessoa, pois essa adquiria fama de bom pagador.
Atualmente, é muito utilizada a nota promissória, particularmente quando não se tem tanta confiança, ainda que a firma não tenha registro. Pelo menos, assinada pelo comprador, essa nota promissória poderá servir como um documento de que a compra foi feita.
Há muitos que só podem contar com essa possibilidade de financiar suas compras, porque não possuem cheque, não possuem cartão de crédito, não têm renda fixa (um mês ganham pouco, outro mês ganham mais, outro mês passam fome, etc.), não têm nada, a não ser o próprio nome e a própria cara. Muitas dessas pessoas não são bandidos ou atrasam e falham em seus pagamentos porque querem ou escolheram isso.
Contudo, a prática do fiado evidencia que existem diferentes comportamentos dos consumidores neste aspecto. Vou tentar esclarecer os comportamentos mais comuns que pude verificar com relação ao fiado aqui em Cabedelo (porque não tenho dados pra me certificar se em todas as regiões ele é feito desse modo):
  1. Os que realmente pagam tudo certinho. São estáveis e fazem questão de manter a honra e sua boa reputação;
  2. os que nunca pagam conforme o combinado: acertam uma quantia, na hora H só podem pagar menos do que combinaram; reparcelam e assim vai. Nunca se tem certeza de quando eles pagarão tudo.
  3. os que realmente o vendedor sabe que pagarão, mas com extrema dificuldade e atraso. São pessoas que só pagam se o vendedor for atrás. Não adianta usar telefone, mandar recado, nada disso. Tem que falar cara a cara e pressionar, mas de modo que nem magoe nem perca o valioso comprador. Digo valioso, porque, o comércio, em geral, não tem muitos fregueses, então normalmente todo comprador que tem certa a possibilidade de pagamento tem que ser mantido.
  4. os que são caloteiros mesmos, vivem procurando quem aceite confiar neles e efetuar a ardilosa compra. Ainda existe esse tipo de gente! E ainda existe quem caia em sua lábia!
  5. os que são bons pagantes por um tempo, como forma de conquistar a confiança do vendedor; geralmente, são simpáticos e fazem questão de falar da importância, da honra de ter o nome limpo por ser um bom pagante, fazem muito comercial de si mesmos. Quando sentem que conquistaram a confiança, fazem uma compra maior, a maior possível. Satisfeitos, agradecem. E... adeus mercadoria, adeus dinheiro...
Outra categoria de vendedor que se utiliza muito da prática do fiado é o representante de revistas tipo Avon, Hermes, meias Valisére, Evisma, Natura, entre outros. Pelo menos, seguramente em Cabedelo é assim, e mesmo em João Pessoa, acontece desse modo, conforme o que pude ver. As vendedoras, embora não seja uma garantia da revista, parcelam as compras, dependendo do valor, em até três vezes. Isso comumente acontece com as representantes da Natura. E elas, pelo que sei aqui, têm critérios bem definidos para escolher seus compradores, só vendem se realmente souberem que o comprador, geralmente amigo, parente, conhecido e com boa fama de pagador, ou indicado por esses, realmente pagar.
Claro que falar desse comércio informal, principalmente, com relação a representantes dessas revistas, sacoleiros, e atividades afins, não é o mesmo que falar de um comércio com ponto fixo. De certo modo, o fiado persiste. Essa relação baseada na confiança é muito comum na vida de várias pessoas. Comumente, alguém precisa vender algo e sabe até a quem vender. Existe ainda a troca, quando duas pessoas trocam bens entre si. Quantas coisas não são vendidas a outro, conhecidos, parentes, ou não tão conhecidos assim, sem documento, com base na confiança que se deposita no comprador? Não sei na vida dos ricões, dos milionários, mas pelo que vivo e vejo nas classes pobres e médias do município, isso é comum.
Há anos queria registrar isso no meu blog. Tudo tem seu dia.

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